Últimas Notícias | 1 de setembro de 2020


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"Se a natureza fosse um banco, já teria sido salva."

(Eduardo Galeano)

“Já batemos no fundo do poço e estamos começando a recuperar”

Da atual situação econômica do País até as reformas que devem ser votadas no Congresso; de infraestrutura até a temida volta da CPMF; de bolsa até juros e dívida fiscal; de WhatsApp até fintechs e as big tech; das empresas do grupo Elopar até plataformas de investimento; de meio ambiente até as práticas ESG. Leia o que o presidente do Bradesco, Octavio de Lazari Junior, falou ao portal NeoFeed por videoconferência em detalhes.


O Bradesco é “uma empresa da velha economia” - As pessoas ficam preocupadas porque sabem que vai ter inadimplência por conta da pandemia. Querem saber como os bancos vão se comportar, o lucro do Bradesco caiu 40%, o do Itaú caiu 40%. Somos, digamos assim, uma empresa da velha economia. Banco tem de dar muito lucro porque, senão, ficamos muito preocupados. Mas os bancos brasileiros, já de muitos anos, criaram uma estrutura de gestão de risco muito sólida. Os bancos brasileiros estão muito bem administrados, têm capital suficiente, têm liquidez, estão com balanços robustos para enfrentar dificuldades. É só um momento, as ações dos bancos vão se recuperar ao longo do tempo. Elas estão até subavaliadas e os balanços podem mostrar que os bancos têm musculatura e força suficientes para fazer frente a uma eventual piora da inadimplência.”


A inadimplência dos clientes do Bradesco - Ponto que preocupa o mercado, o Bradesco fez provisões adicionais de R$ 8,9 bilhões. “Temos uma relativa tranquilidade de que as provisões que fizemos serão suficientes para cobrir a inadimplência”, diz ele. “Estamos sendo hiper conservadores. Nós, os outros bancos brasileiros e os bancos americanos também... Se você olhar os balanços do J.P. Morgan, Morgan Stanley e Citibank, todo mundo está fazendo provisões. O lucro caindo 40% e o retorno sobre o patrimônio caindo para 4% ou 7%. Aqui no Brasil ainda estamos com 13% ou 14%. Todo mundo está sendo conservador porque a gente nunca viveu isso. Estou no mercado há 42 anos e peguei todos os planos econômicos possíveis e imaginários, as crises de 2008 e de 2015, mas essa crise atual é sem precedentes. Não sabemos exatamente o tamanho da conta que será paga. Se você olhar os balanços dos bancos brasileiros e dos estrangeiros, vai ver que a inadimplência caiu porque a prorrogação foi um ingrediente novo que foi adicionado por conta da pandemia. E essas prorrogações vão vencer só no fim do ano ou começo do ano que vem.”


A questão digital e o fechamento de agências do Bradesco - A crise do coronavírus acelerou a questão digital. Lazari Junior diz que, mensalmente, 180 mil novas contas estão sendo abertas pelo app do banco Next e 100 mil novas contas pelo app do Bradesco. E que, diante deste fato, adicionado ao comportamento dos clientes, o fechamento de algumas agências físicas é inevitável. “Antes da pandemia, os caixas do Bradesco faziam 1 milhão de autenticações por dia. Agora, fazemos 100 mil por dia. E todas as agências estão abertas”, diz Lazari Junior. Ou seja, os clientes estão usando os canais digitais. “Eu preciso ter 16 agências na Avenida Faria Lima? Se eu tiver 12 está bom. Para que ter uma de um lado da rua e outra na frente?”, diz.


Agências bancárias físicas vão fechar – ”Isso é uma realidade irrefutável e não tem como lutar contra. E nem deveria, a gente olha a capacidade que os bancos tiveram de implementar as tecnologias no mobile e os brasileiros são heavy users de mobile. Foi por conta dessa tecnologia que conseguimos resolver muitos problemas nessa pandemia sem que os clientes precisassem ir até as agências. Isso vai levar a uma diminuição das agências físicas. Por exemplo, eu preciso ter 14 agências na Avenida Paulista? Portanto, teremos, sim, um encerramento de agências. As agências se tornarão cada vez mais um ponto de negócios.”


A queda de rentabilidade do Bradesco - O Bradesco registrou no segundo trimestre deste ano uma queda de 40,1% no seu lucro, chegando a R$ 3,87 bilhões, e a rentabilidade sobre o patrimônio despencou para 11,9%. No mesmo período do ano passado, ela estava em 20,6%. Lazari Junior diz que os retornos voltarão, é uma questão de tempo.


Euforia na retomada da economia – “Não dá para ter euforia num momento como esse. Até porque ainda não temos a solução para o problema que estamos vivendo, não sabemos a extensão real e quão longa é essa cauda e não sabemos a dimensão, de fato, de tudo o que está acontecendo. É uma euforia controlada porque você tem sinais de recuperação, mas que vieram de meses de terra arrasada. Não dá para dizer que voltamos ao normal diante da pandemia, longe disso. Precisamos ter muito cuidado com essas avaliações até para que não haja uma movimentação desordenada das pessoas e das empresas, para que não tenhamos uma segunda onda de infecção. Até porque o número de vítimas fatais no Brasil ainda é muito alto.”


O saldo da crise do coronavírus – ”Do lado ruim, milhares de empresas que vão ficar pelo caminho, um desemprego acentuado, uma inadimplência alta e uma dívida fiscal acima de 90% do nosso PIB. São quatro pilares bastante ruins. De outro lado, tivemos um aprendizado com mais tecnologia, mais clientes digitalizados, uma convivência social mais respeitosa, com menos aglomeração e hábitos de consumo mais ponderados. Esse é o lado bom. Mas o lado ruim é que muitos vão ficar pelo caminho.”


Provisões para a crise do coronavírus – “Hoje temos um avanço de métricas para fazer avaliação das provisões necessárias. É um jeito mais sofisticado do que tínhamos no passado. Pegamos as crises vividas em 2008 e a de 2015 e agravamos esse cenário para estimar a perda. Outra coisa é que conseguimos colocar numa grande base de dados qual é o perfil dos clientes que estão prorrogando as dívidas e se eles vão conseguir pagar ou não. No caso do Bradesco, quando olhamos o perfil do cliente que prorrogou a dívida, ele é muito bom. Ele tem, em média, 14 anos de relacionamento com o banco. Quando você olha o rating desses clientes, 96% deles tinham ratings de AA até C, 93% deles não tinham nenhum tipo de atraso nos últimos 12 meses e 71% desses créditos prorrogados têm garantia real. Então, quando você olha isso, a perspectiva de inadimplência desses clientes não é tão alta porque são operações de crédito imobiliário, financiamento de veículo, cuja maior parte já foi paga. Temos uma relativa tranquilidade de que as provisões que fizemos serão suficientes para cobrir a inadimplência, que vai acontecer só no fim desse ano ou no começo do ano que vem.


As prorrogações de dívidas no Bradesco – “Falando do Bradesco, tem alguns aspectos importantes. O cliente podia prorrogar por 60 dias e depois, se quisesse, podia prorrogar por mais 60 dias. 65% das pessoas não quiseram prorrogar de novo e pagaram os empréstimos. Somente 35% prorrogaram. Isso mostra que devemos ter uma qualidade boa de liquidação. Mas é o que a gente fala, o dinheiro que emprestamos não é do Bradesco, é dos nossos depositantes. Então, preferimos ser mais conservadores neste momento e fazer as provisões. Se não forem totalmente utilizadas, depois voltam para o resultado e não tem problema nenhum.”


A questão fiscal e as reformas – ”Precisamos implementar as reformas que estavam em andamento. A previdenciária já saiu e agora tem as reformas tributária e administrativa. Pelo que escuto, tanto do Alcolumbre (Davi Alcolumbre, presidente do Senado) e do Maia (Rodrigo Maia, presidente da Câmara), é que todos estão muito conscientes de que essas reformas precisam sair. Não tem outra alternativa para que a dívida fiscal não exploda. Sem as reformas, não tem outra maneira de a gente segurar e ajustar esse lado fiscal. É importante que a taxa de juros continue baixa por um longo período. Com isso, é possível fazer uma gestão de endividamento das contas públicas e também das empresas e das pessoas físicas.”


As taxas de juros do Bradesco – “Para o ano que vem, não vemos a taxa de juros subindo significativamente. Ela é um instrumento de política monetária que deverá ser usada se houver uma explosão de consumo e a inflação voltar. Por isso é importante a gente voltar de maneira organizada para que as empresas possam recuperar sua capacidade de produção, para que não tenha uma demanda maior do que a oferta. Se tiver, os preços sobem e a inflação se descontrola. No cenário que olhamos, de pouco mais de um ano, não me parece haver nenhuma pressão inflacionária que possa exigir do Banco Central uma ação mais forte. Mas, na pior das hipóteses, se escapar um pouco e tivermos de dobrar a taxa de juros, estamos falando de 2% para 4%. Não estamos mais falando de dobrar de 20% para 40%.


Retomada da economia em “V” - ”E já disse algumas vezes que não acredito numa retomada em “V”. Até temo pela recuperação em “V” por conta dos problemas de infraestrutura do País e de você não conseguir manejar a oferta e demanda de maneira adequada. No campo, a produção tem data para acontecer. Você não planta o milho hoje e colhe amanhã. Nas fábricas também. Não dá para voltar a 2,5 milhões de carros no ano da noite para o dia, tem um tempo para acontecer. Sou mais favorável que tenhamos uma recuperação em “V” da Nike.”


Retomada da economia em “U” - “O pessoal fala em “U”, mas eu acho que já batemos no fundo do poço e estamos começando a recuperar. Não vamos ficar no estágio de terra arrasada por muito tempo. Já dá para perceber alguns setores se recuperando e dá para ver uma recuperação gradual. Tenho dito há muitos anos que o Brasil não precisa crescer mais do que 3% ou 4% ao ano. Não temos dinheiro, investimentos e infraestrutura necessária para suportar um crescimento maior do que esse. Prefiro crescer 3% ou 4% durante dez anos, quinze anos, vinte anos, para que preparemos a infraestrutura no Brasil, para que possamos depois almejar crescimentos maiores.”


O retorno da CPMF – “O que não achamos razoável, não é a reforma tributária, é a volta da CPMF. Ela tem um poder de arrecadação muito grande e acho que as alíquotas de imposto no Brasil já penalizam demais as pessoas físicas e jurídicas. O que está sendo proposto, pelo menos o que sabemos até agora porque não vimos claramente, é que seria uma alíquota de 0,20% e incidiria sobre o crédito e o débito. Então, ela passa a ser 0,40%. E o maior problema dela é que você vai tributar em cascata a cadeia produtiva que é muito longa, é uma loucura isso. Não é um imposto justo porque tributa desde a pessoa mais humilde até o rico com o mesmo percentual. Além disso, vai fomentar a informalidade de novo, a sonegação. Quando tinha a CPMF lá atrás, pegávamos cheque que tinha 19 endossos. Vai voltar o cheque para o Brasil e um vai passar para o segundo, o terceiro, o quarto, o quinto, o sexto. Como vai prevenir lavagem de dinheiro e sonegação com esse tipo de coisa? Não tem como. Não é um imposto bom. Se fosse bom, outros países mais avançados teriam adotado. Não me parece apropriado e justo.”


A reforma tributária ideal – ”As propostas de reforma tributária que foram feitas pelo Bernard Appy, pelo Baleia Rossi e pelo governo têm pontos muito interessantes. Talvez seja o caso de pegar a do Appy e do Baleia Rossi como espinha dorsal e ajustar ela. O que a gente precisa, neste momento, não é nem tanto uma reforma tributária, mas uma simplificação tributária. Como falamos do problema fiscal, sabemos que não vai dar para reduzir a carga tributária agora. Ela é extremamente elevada, uma das maiores do mundo, mas não tem como a gente se iludir e achar que vai dar para diminuir impostos agora porque o País precisa dessa arrecadação para fazer frente a sua dívida fiscal que é enorme. Agora, o custo tributário no Brasil não reside só na alíquota do imposto em si. Ele tem alguns custos que ninguém olha, mas que são absurdamente elevados.”


O custo tributário no Brasil – ”O País tem uma teia fiscal que você tem de ser um estudioso profundo para poder entender e, mesmo assim, você não entende. Cada município tem sua regra, cada estado tem sua regra, tem impostos que se misturam com outros, imposto incide em cima de imposto. O Bradesco, por exemplo, tem 280 pessoas só para cuidar de imposto. É um custo absurdo. Se você tivesse uma simplificação de PIS e da Cofins, juntasse os tributos federais e ajustasse os municipais com os estaduais para fazer a distribuição, teríamos um custo muito menor.”


O desempenho da Bolsa – ”Acho que vai haver uma reprecificação dos ativos. Todo mundo está em compasso de espera, porque ninguém sabe quando essa economia retoma de vez, para que possamos avaliar os ativos de forma coerente e comparável. Mas o crescimento da bolsa já era um movimento que vinha acontecendo porque, com uma taxa de 2%, 3% ou 4%, as pessoas procuram outras formas de investimento para tentar melhorar seu ganho. Isso acabou levando as pessoas para o mercado de ações. Tem também todo o aspecto do Novo Mercado, que deu mais tranquilidade para as pessoas investirem, e as novas casas de investimentos, que atraíram um novo público. O número de brasileiros que passaram a investir em bolsa no último ano é impressionante.


Ágora, plataforma de investimentos do Bradesco – ”Esse ano, 450 mil novos investidores entraram na Ágora. Mas dá para entender justamente por estarmos vivendo com uma taxa de juros de 2% com uma inflação perto disso. Dependendo da inflação, estamos falando de uma taxa de juros negativa. A tendência é a bolsa de valores continuar crescendo.”


As Big tech - As fintechs são parceiras dos bancos. Hoje, por meio do nosso braço de private equity, temos investimentos em 18 fintechs. Agora, o que me preocupa e sempre me preocupou são as big tech. Elas têm uma capacidade de processamento de dados incomensurável, muito grande. Olha quantos milhões de pessoas usam o Facebook, o Instagram e o próprio WhastApp aqui no Brasil. Não tenho problema de o WhatsApp entre nesse jogo, desde que não haja diferença. Ele tem de respeitar exatamente todas as regras a que estamos condicionamos. Regras de segurança, de não vazamento de dados, de lavagem de dinheiro, de fraude. Foi por isso que o BC segurou, porque precisamos ter essa segurança. A regra tem de valer para todos.”


Next - “Hoje está com 2,7 milhões de clientes e até o fim do ano ultrapassaremos 3,5 milhões. O Bradesco comprar participação no C6 Bank não procede. Não sei por que saiu essa conversa sobre C6. Eu conheço pouco, mas a gente sabe que ela é uma plataforma bem arrumada, que faz uma concorrência muito boa com o Next, a jornada deles é agradável, o pessoal que cuida do C6 é experiente e sabe o que faz. Mas não faz muito sentido pra gente comprar o banco C6. Não posso gastar munição, tenho que focar no Next, que está indo bem e teremos novidades fantásticas chegando. Por enquanto não tem nada, mas, como sempre falo, nunca viramos as costas para boas oportunidades. Então, sei lá, se o C6 quiser, podemos até conversar.”


Bradesco e Elopar, dona da Elo, Cielo e Livelo - “Estávamos conversando com o Banco do Brasil sobre a compra do Cielo antes da pandemia. A conversa sempre foi muito boa, até por isso são parceiros nossos em vários investimentos em conjunto. Agora, não adianta a gente tomar uma decisão sobre Cielo agora. A Cielo é uma empresa que precisa fazer um turnaround, levamos o Paulo Caffarelli para fazer isso. Só que ela perdeu o bonde da história quando ficou muito concentrada nas grandes corporações, nos grandes varejistas, e não cuidou ou não deu atenção para o pequeno comércio, para o microempresário individual, que garantem melhores taxas de intercâmbio. Essas grandes redes que a Cielo atende lhe dão 40% de market share, mas com uma margem extremamente apertada, muitos até dão prejuízo. A Cielo era a queridinha do mercado, tinha 50% de geração de caixa, era uma empresa fantástica. Mas, por conta dessa letargia da empresa no passado e também por conta de toda a mudança regulatória promovida pelo BC, outros atores de mercado entraram no vácuo da Cielo e se tornaram empresas muito rentáveis, grandes e abriram capital fora do País, como a Stone e a PagSeguro. Hoje, a Cielo está fazendo esse turnaround, buscando novos clientes, sacrificando menos margem. Só que pegou essa pandemia no meio do caminho e as vendas com cartão de crédito, que são a grande receita, caíram 70%.


A parceria entre Bradesco e BB na Cielo – ”A Cielo é um negócio muito importante para nós e para o Banco do Brasil. Adquirência é um negócio que o Bradesco não pode abrir mão. Ela faz parte do portfólio de produtos e serviços que preciso oferecer para as empresas. Tenho a conta do Carrefour e não vou ter adquirência para botar no PDV deles? Não dá. Então, a questão da Cielo é a de passar por esse momento e reconstruir a empresa. Ela vai voltar a dar lucro e vamos escutar a ideia do Banco do Brasil em relação a Cielo. Acho que deve ser a mesma que a nossa, de reconstruir a empresa.


Bradesco, Itaú, Santander em união pelo meio ambiente - Recentemente, como presidente do Bradesco Lazari Junior se juntou a Candido Bracher, presidente do Itaú Unibanco e a Sérgio Rial, presidente do Santander, para pedir ao governo brasileiro mais atenção com a questão do meio-ambiente. Lazari fala sobre essa união: “Tiveram alguns gatilhos que fizeram com que isso acontecesse. O Bradesco, lá de trás, já falava de preservação do meio-ambiente, o banco do planeta, Amazônia sustentável. Neste ano, após o Fórum Econômico Mundial de Davos, anunciamos que 100% do consumo de energia elétrica do banco seria somente de fontes renováveis. Até o fim do ano, 100% das emissões de carbono de todos os nossos funcionários serão compensadas com créditos de carbono que estamos adquirindo. É o quinto ano que vou para Davos e você escuta gente do mundo inteiro falando sobre aquecimento do planeta, dos oceanos, do meio-ambiente. Mas é muito discurso e pouca ação. Se houve algo de bom nessa pandemia foi que eu, o Candido e o Rial, ficamos muito mais próximos, nos juntamos muito mais para conversar. Nem nos EUA, três bancos que são competidores vorazes no mercado, se juntaram para fazer um anúncio conjunto na televisão, no online e no offline para ajudarmos com doações na pandemia.


Os grandes bancos brasileiros e a Amazônia – ”Numa conversa entre a gente, decidimos fazer algo sobre o meio-ambiente e em especial sobre a Amazônia porque é tanta coisa que se fala, tanta verdade e tanta inverdade, que resolvemos fazer algo. Primeiro, decidimos fazer isso com a CEBEDS - Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável, porque junto com outros CEOs de empresas que são nossas clientes, assinamos uma carta pedindo medidas do governo. Eu sei que não é algo trivial, aliás, é muito complexo. A Amazônia tem uma área de 5,5 milhões de quilômetros quadrados. Isso equivale a todos os países da União Europeia juntos. Então, decidimos estabelecer dez pontos importantes para serem desenvolvidos junto com o governo. Queremos desenvolver ações estruturantes na Amazônia.”


Ações na Amazônia – ”Todos os grandes frigoríficos, por exemplo, são clientes do banco. Tenho o direito e, mais do que direito, o dever de chamar eles aqui e falar: ‘vocês precisam ter o selo verde de que a carne é comprada de produtor que não faça desmatamento’. Com o nível de pastos que temos hoje no Brasil, não precisamos derrubar nem uma árvore para dobrar a produção. A gente pode exigir dos frigoríficos brasileiros que isso seja observado, sob pena de que, se ele não cumprir, não vou dar mais crédito para ele. Aliás, como a gente já vem fazendo há dois anos. Se uma empresa tiver problema de trabalho escravo, de desmatamento ou outros problemas mais sérios, nem adianta ela ter um balanço bom, a gente nem faz o crédito. Antes de fazer a análise de crédito, ela passa no nosso comitê de sustentabilidade. Esse é um exemplo. Outra coisa que podemos fazer é incentivar e financiar a monocultura, da produção do cacau, do açaí. Se essa pessoa tem renda, ela não vai desmatar. Temos como incentivar e não é só dinheiro, é atitude de mudar como fomentamos isso na Amazônia.”


As queimadas – “Botam fogo na floresta porque é o método rudimentar de tratar a terra. Desde que o mundo é mundo, se queima a palha porque a cinza enriquece o solo para que a plantação venha mais forte. É simples assim, pode falar com a Embrapa que você vai ver que não estou falando nenhuma bobagem. O que precisa? Levar para lá técnicas agrícolas como as que temos aqui no Sul do País. Você não vê mais queimada de canavial aqui em São Paulo. Porque tem técnicas agrícolas mais modernas. Então, levar uma técnica agrícola e reforçar os quadros da Embrapa para ensinar essas pessoas plantarem sem queimar, é simples. E ainda tem um ponto muito importante que é pagar uma dívida muito grande que temos desde os anos 1970.”


Resgate cultural e humanitário – “Nos anos 1970, o governo incentivou as pessoas a irem para a Amazônia, para poder povoar a região. Eles foram para o Acre, Amazonas, Pará, Roraima, Rondônia, com a promessa de que eles poderiam plantar e teriam seus pedaços de terra. Até hoje a regularização fundiária dessas pessoas não foi feita. Elas estão de maneira irregular porque nós as levamos para lá. Dá a posse para essa pessoa para que ela possa ir lá no Bradesco financiar a próxima safra. Tem um efeito de cidadania. Precisamos fazer esse resgate cultural e humanitário e nós queremos ajudar a fazer isso porque aí você vai poder dar crédito para essas pessoas. Elas terão um sentimento de pertencimento e, produzindo na terra, não vão precisar entrar na floresta e desmatar para poder vender madeira e gerar sustento. Eu sei que é complexo, que algumas pessoas podem achar que é demagogia. Mas, vou te falar uma coisa, eu, o Candido e o Rial estamos numa etapa da vida que a gente não precisa fazer demagogia com nada. Os nossos bancos têm um peso muito grande para arrastar outras empresas para isso.


Porque os três grandes bancos se uniram para atuar em favor do meio ambiente – ”Temos um resgate moral com as próximas gerações. Tenho certeza de que, cada vez mais, os clientes não vão comprar de empresas que não são ecologicamente e socialmente responsáveis. Eu vejo pelos meus filhos. Tem certas coisas que eles não consomem porque eles sabem que aquela empresa que produziu aquilo não respeita o meio-ambiente, o social e a diversidade. Todas as empresas que pretendem ser prósperas num futuro bem próximo terão de ter essa preocupação. E aí entra a questão do ESG - environmental social, and governance. O ESG é uma realidade que não dá para fugir. As empresas que não forem responsáveis socialmente e ambientalmente estão com os dias contados, não terão futuro.”


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